domingo, 30 de maio de 2010

To Michael.

Um sopro criativo na linha de produção (ou a intolerância de quem acha que domina).



Queres conhecer um homem? Dá poder a ele, por mais ínfimo que seja e ele mostrará seu real caráter.

Comecei a escrever este texto de uma maneira bem leve. Diria cordata, meiga até, apesar de não ser esse meu estilo. Mas estava feliz pensando em como a convivência entre vários tipos de pessoas é possível e saudável.

Até hoje à tarde era o que eu estava sentindo. Porém a face cruel da dominação, mesmo permanecendo à sombra por certo tempo, tem que se mostrar para que saibamos que ela existe e está sempre à espreita para nos colocar no devido lugar quando tentamos ser um pouco menos tristes. Ela aparece nos comentários maldosos, nas alegações de que um espaço não é próprio para certo tipo de manifestações ou em narizes torcidos no meio de caras quase mumificadas.

Meu texto originalmente falava sobre vencer barreiras, diminuir distâncias até o ponto de elas quase inexistirem. Meus comentários atinham-se, até então, a um cenário quase surreal: Um punk, com o cabelo devidamente espetado e fixado curtindo bandas de rock dentro de um salão de baile (não sei se é assim que chamam aqui, pois já ouvi nomearem como sociedade).

Discorria sobre o fato de apreciar essa estética do absurdo e achar que boa música costura todos esses retalhos aparentemente sem nexo.

Minha intenção era a banda RS115, por achar que o trabalho desses músicos é capaz de emprestar unidade a elementos desencontrados. São duas gerações no mesmo palco e juntas todos os sábados (durante a semana é linha de produção, é ralação pura, meu irmão!) tocando músicas próprias, no mais puro espírito rock׳n roll.

Encanta-me testemunhar a cultura sendo criada. E é cultura proletária. É o mundo do qual faço parte.

Podem me rotular de marxista, obsoleta ou como preferirem, mas eu adoro essa palavra e todo o significado que ela tem: proletário. Soa tão bem, soa revolucionária e cheia de poder. É o antagonismo à classe dominante. Quero sempre ser proletária.

O mundo é grande. Tem espaço para todos. Podemos viver em paz, respeitando e exigindo respeito, aprendendo e ensinando. Sim, ninguém sabe tudo, ninguém é dono absoluto da verdade, mesmo porque existem várias verdades no mesmo espaço e ao mesmo tempo.

Ultrapassar limites é o que faz a vida ser interessante. Conviver com pessoas diferentes e ir a lugares em que nunca fomos é o que nos acrescenta humanidade, tão em falta ultimamente.

Por que deixar preconceitos imbecis ditarem normas sem sentido?

Existem tantas maneiras leves e divertidas de exercitarmos nossa tolerância. Por que não as usam, senhores? Por que não aprendem a nos respeitar assim como nós aprendemos diariamente a fazer isso? Por que pensar que o que nós gostamos e criamos não é cultura ou que não tem o mesmo valor de sua empoada cultura tradicional?

13 de maio de 2010.

"It's Only Rock 'n Roll (But I Like It)".

A dura realidade de uma semana estafante, cheia de coisas para fazer, o trabalho que nos dá a dignidade de cada dia e que retira de nós, sem que percebamos, a vontade de viver novidades ou a vontade mesma de viver.


Noite de sábado, e “porque hoje é sábado” e trabalhei demais a semana inteira, quero apenas fechar os olhos e ter um sono sem sonhos. Quero, sem querer, descansar o corpo para, na segunda-feira, como um autômato, reiniciar tudo novamente, reentrar no círculo dos mortos-vivos e continuar a fazer o mundo girar.

Entretanto alguém me acorda e faz o convite: “Vamos no Tio Remy?”. Ok, vamos. Uma concordância daquelas pra não perder o namorado. E, “porque hoje é sábado”, vivi uma experiência quase alucinante. Esperando um expresso, serviram-me um capuccino.

Eu que julgava a geração Y tremendamente alienada (tecnologia, tecnologia!), que nada de novo aconteceria daqui pra frente e que o mundo não tem mais jeito, fui surpreendida por uma galera que curte o puro rock’n roll. Isso não pode ser sinal de acomodação, pois a música é a demonstração da rebeldia em seu estado bruto.

Quando uma pessoa gosta de rock pode ser gosto pessoal, quando muitas pessoas ouvem, cantam e levantam as mãos – espalmadas, punhos fechados, dedos em “V” ou com o indicador e o mínimo para o alto – no mesmo ritmo da batida da bateria é outra coisa. É algo maior. É a comprovação de que ainda não perdemos completamente nossa humanidade e que podemos, sim, fazer a vida bem melhor.

Ouvir a galera cantando, junto com a banda, “Psycho Killer” e outras que não se ouvem nas rádios foi arrasador. Há cabeças falantes, pensantes, cantantes e ouvintes entre nós. Essa constatação fez minha segunda-feira ser um pouco menos tensa, um pouco menos cinza, um pouco mais suportável.

Perdoem-me os apreciadores de outros gêneros musicais, afinal “há gentes de todos os tipos” e é a diversidade que faz a beleza, mas viver o que vivi naquelas poucas horas da madrugada trouxe-me um ânimo novo e me fez lembrar que sou uma pessoa e que sou multidão também. Uma parte do todo. Uma andorinha no bando e só o bando pode fazer o verão.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Férias? Que férias? Ah, sim... Que férias!

Nasci em Santa Maria e lá vivi até meus 28 anos. Desde que deixei minha cidade, há mais de dezessete anos, nunca mais retornei. Isso até minhas últimas férias.


Bem, após um trabalho de meses, baseado em envios de mensagens subliminares, convenci o maridão e o filho caçula – a mais velha está definitivamente desobrigada de seguir a mãe até o fim do mundo – de que deveríamos dar um fechamento de ouro a nossas férias. Como? Fazendo uma viagem de não sei quantos quilômetros em nosso possante Palio usado recém adquirido. Destino? Santa Maria. Esclarecendo: saída de Igrejinha.

Data para saída marcada. Preparativos, óbvio a meu cargo, ultimados. Partimos.

As encrencas começaram já na passagem por Estância Velha. Um descuido do motorista, que suponho não confie em mim para dividir a direção na estrada, custou um pára-choque danificado.

Em Montenegro nos perdemos. Após rodarmos vários quilômetros em uma monótona estrada em linha reta, percebemos que tomávamos o caminho para a serra e nosso destino era o centro do Estado. Tudo bem. Sem crise. Eram férias. Não deixamos que esses detalhes mesquinhos perturbassem-nos, pois estávamos indo à “cidade cultura”. Muita coisa bonita para ver.

Ao passarmos por Agudo, por volta de duas horas da madrugada, encontramos o que? Um rio enorme cuja ponte fora levada pela enchente. Mas, fomos em frente após pedirmos socorro para o telefone de emergência, já que àquela altura nem eu sabia onde estávamos.

Seguimos por um desvio em estrada de chão. Acho que era uma estrada de pedras, não de chão. Nossa! Quanta pedra naquele desvio! Que peninha do Palio!

Horas depois chegamos enfim à cidade “Coração do Rio Grande”.

Poucas horas de sono em um hotel barato e fomos os três visitar a bela cidade que eu descrevera aos meus dois acompanhantes, durante os meses que antecederam a viajem.

Tristeza atroz! A cidade de minhas recordações não existe mais.

Locais antes usados para produzir arte e cultura foram destruídos. Doeu o coração ver o estado de abandono da Estação Ferroviária, da Avenida Rio Branco e mesmo do centro da cidade.

O remédio foi pedir desculpas aos frustrados visitantes das minhas lembranças e concluir que é melhor guardar a imagem da recordação que tentar retornar à imagem real. Nesse caso ela não existia mais.

Mas não foram apenas agruras. Vejam só! Depois de seis anos convivendo sob o mesmo teto, nós três passamos todo um final de semana juntos, não um em cada canto preocupado com suas próprias coisas.

Com todos os percalços do caminho, valeu a viagem, pois o destino bem pouco importa quando estamos próximos de quem amamos. Além disso, visitei pessoas muito, muito queridas, que há bastante tempo eu não via. Essas, com certeza, é melhor rever do que guardar apenas na lembrança.



15.05.2010.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Gostei da definição.

"O lado esquerdo da embarcação chama-se bombordo. Este nome vem do fato de os navios ao descerem o Atlântico ao longo da costa Africana terem à sua esquerda a terra e os respectivos portos - bom bordo - enquanto que do lado direito só existia o mar e o desconhecido. Esse lado é representado com uma luz vermelha, cor do coração e da saudade".