A dura realidade de uma semana estafante, cheia de coisas para fazer, o trabalho que nos dá a dignidade de cada dia e que retira de nós, sem que percebamos, a vontade de viver novidades ou a vontade mesma de viver.
Noite de sábado, e “porque hoje é sábado” e trabalhei demais a semana inteira, quero apenas fechar os olhos e ter um sono sem sonhos. Quero, sem querer, descansar o corpo para, na segunda-feira, como um autômato, reiniciar tudo novamente, reentrar no círculo dos mortos-vivos e continuar a fazer o mundo girar.
Entretanto alguém me acorda e faz o convite: “Vamos no Tio Remy?”. Ok, vamos. Uma concordância daquelas pra não perder o namorado. E, “porque hoje é sábado”, vivi uma experiência quase alucinante. Esperando um expresso, serviram-me um capuccino.
Eu que julgava a geração Y tremendamente alienada (tecnologia, tecnologia!), que nada de novo aconteceria daqui pra frente e que o mundo não tem mais jeito, fui surpreendida por uma galera que curte o puro rock’n roll. Isso não pode ser sinal de acomodação, pois a música é a demonstração da rebeldia em seu estado bruto.
Quando uma pessoa gosta de rock pode ser gosto pessoal, quando muitas pessoas ouvem, cantam e levantam as mãos – espalmadas, punhos fechados, dedos em “V” ou com o indicador e o mínimo para o alto – no mesmo ritmo da batida da bateria é outra coisa. É algo maior. É a comprovação de que ainda não perdemos completamente nossa humanidade e que podemos, sim, fazer a vida bem melhor.
Ouvir a galera cantando, junto com a banda, “Psycho Killer” e outras que não se ouvem nas rádios foi arrasador. Há cabeças falantes, pensantes, cantantes e ouvintes entre nós. Essa constatação fez minha segunda-feira ser um pouco menos tensa, um pouco menos cinza, um pouco mais suportável.
Perdoem-me os apreciadores de outros gêneros musicais, afinal “há gentes de todos os tipos” e é a diversidade que faz a beleza, mas viver o que vivi naquelas poucas horas da madrugada trouxe-me um ânimo novo e me fez lembrar que sou uma pessoa e que sou multidão também. Uma parte do todo. Uma andorinha no bando e só o bando pode fazer o verão.
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